
Segue abaixo a transcrição de um documento pertencente à Associação Museu Memória do Jaçanã, onde a história do bairro é retratada pelo comerciante Luciano Zinzani, provavelmente do final da década de 70 ou começo da de 80.
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HISTÓRIA DO BAIRRO DE JAÇANÃ
LUCIANO ZINZANI
O desenvolvimento da periferia da cidade de São Paulo foi muito lento, principalmente na Zona Norte. Fatores negativos impediram, de certa forma, a integração do bairro do Jaçanã nas transformações ocorridas em São Paulo. A transposição da várzea do Tietê, facilmente inundável; problemas de transporte e comunicação; a construção do Lázaros no Guapira, constituíram, conjugados, no isolamento do bairro.
Todavia, com a construção do Tramway da Cantareira, o melhoramento da várzea do Tietê, ficou evidenciado a sua integração na vida urbana da cidade. A própria industria só chegou ao Guapira, em 1918, iniciando um novo período de crescimento. No entanto, ainda em 1940, o bairro do Jaçanã (antigo Guapira) permanecia em seu estado primitivo, por falta de melhoramentos imprescindíveis ao se desenvolvimentos.
Jaçanã foi sofrendo mudanças gradativas até a década de 30, rápidas após 1960, completando com a extinção do Tramway da Cantareira, o trenzinho como era conhecido, o Asilo de Inválidos D. Pedro II, o Hospital São Luiz Gonzaga, pois foi em sua função que nasceu o bairro de Jaçanã.
A conquista da várzea do Tietê foi lenta. A planície inundável do Tietê que, em alguns trechos chega a 2 Km de largura, forma verdadeira faixa de separação entre os bairros e as áreas urbanizadas, como aconteceu com a Casa Verde e Freguesia do Ó na parte norte-oriental, Santana no Norte, a Vila Maria na direção norte-ocidental. No lado norte, da capital paulista, seguindo o caminho natural do rio Tietê, dois grupos irão se formar; um na vertente esquerda do rio, desde a periferia da parte central da cidade, até a várzea, formado pelos bairros Santa Efigênia, Campos Elísios, Bom Retiro e Luz, outro, na vertente além – Tietê, na colina direita, prolongando-se até a Serra da Cantareira. A este grupo pertence, antigos e tradicionais subúrbios da capital, como Santana, Freguesia do Ó, Casa Verde e Tucuruvi.
Santana é o mais antigo núcleo de povoamento situado na periferia da Zona Norte da Capital. Sua origem remonta a Fazenda do Tietê, que mais conhecida se tornou sob o nome de Fazenda de Santana. O distrito de paz de Santana, criado a 4 de abril de 1889, pela Lei número 99, principiam na Ponte Grande, acompanham o Tietê a divisa de Conceição de Guarulhos. Segundo Nuto Sant’Anna, o antigo bairro de Santana desdobrou-se em: Tucuruvi, Tremembé, Cantareira, Guapira, Areal, Vila Guilherme, Vila Maria, Parada Inglesa, Vila Mazzei, Imirim, Chora Menino, Santa Terezinha, além de vários outros de menor importância. Durante muitos anos, o bairro de Guapira permaneceu durante muitos anos parada no tempo, mesmo com a inauguração do “Tramway da Cantareira”, que foi ao longo dos anos o fator de ocupação e colonização dessa área.
Em 1908, pela Lei orçamentária número 1.160 de 20 de dezembro o governo autorizou a construção de um ramal que atingisse o bairro Guapira. O ramal de Guapira foi concluído em fins de Outubro e a primeira inauguração foi efetuada no dia 15 de novembro de 1910. No mesmo ano, o então Governador Albuquerque Lins, autorizou o prolongamento do ramal de Guapira até o Município de Santa Izabel, passando por Conceição dos Guarulhos. A estrada atacou os serviços, mas parou em Guarulhos, tendo sido inaugurado esse novo trecho a 4 de fevereiro de 1915. Durante anos, o antigo “Tramway da Cantareira” constituiu um elemento singular e algo excêntrico da vida paulistana. Com sua bitola de 60 cm e correspondente material rodante de proporções quase liliputianas, serviu uma extensa área, através de seus ramos bifurcados um no ramo do Tremembé e da represa da Cantareira, outro na direção de Guarulhos. A estação foi construída nas imediações do Mercado Municipal, no Parque D. Pedro II. Suas minúsculas locomotivas, fumegando e expelindo fagulhas por todos os lados, alcançavam a serra, a 816 metros de altitude e rebocando carros abertos, semelhantes aos antigos bondes puxados a burros.
O ramal de Guapira seguia pela Ataliba Leonel até o Carandiru, e dali contornando os morros, subindo e descendo, Vila Paulicéia, Parada Inglesa, Tucuruvi, Vila Mazzei, Jaçanã, Vila Galvão e outros bairros até atingir Cumbica, sete quilômetros do centro ao Município de Guarulhos. Com a inauguração do trem, formou-se ao redor da estação do Guapira, o primeiro núcleo de moradores.
O Tramway da Cantareira foi incorporado à Sorocabana por força do Decreto número 12.617 de 31 de março de 1942. Dia 22 de abril de 1947 é inaugurado a nova bitola de 100 metros com o aproveitamento de material rodante enviado pela Sorocabana. Em 19 de maio de 1965 foi suspenso o tráfego de Areal á Guarulhos, sendo que em 31 de maio de 1965 foi considerado extinto e fechado definitivamente ao tráfego o ramal de Guarulhos. Sua extinção deveu-se ao inúmero déficit verificado durante muitos anos. O trenzinho foi cantado em prosa e verso e o mais famoso foi escrito por Adoniran Barbosa e cantado pelos “Demônios da Garoa” com o nome de “Trem das Onze”. O ramal de Guarulhos facilitou inclusive aos transportes de materiais para as obras do Asilo de Inválidos.
O Asilo de Inválidos, no bairro de Guapira foi inaugurado solenemente no dia dois de julho de 1911, que até então ocupava uma casa na rua da Glória, junto ao Externato “São José”. A criação do Asilo de Inválidos D. Pedro II, remonta de 1974, quando autoridades preocupadas com a mendicância em nossa cidade, procuravam um lugar para alojá-los. No entanto, somente em Março de 1883 foi iniciada a construção de um asilo em São Paulo, quando o Dr. Hipólito de Camargo, então exercendo a função de chefe da polícia percebeu a ocorrência de um grande número de mendigos esmolando nos pontos centrais da cidade. Dessa forma, nesse mesmo mês, um cidadão anônimo esteve na residência do Dr. Hipólito de Camargo, não o encontrando, deixou a quantia de um conto de réis, acompanhada de uma carta onde registrou a finalidade da doação: - construção de um asilo de mendicidade. Outros donativos surgiram, inclusive do Imperador D. Pedro II, que colaborou com a quantia de quinhentos mil réis. A idéia da construção de um Asilo de Inválidos no bairro de Guapira, surgiu quando a Irmandade Santa Casa de Misericórdia de São Paulo adquiriu uma enorme área de terreno nesse local, já ocupada parcialmente pela Colônia de Lázaros. O projeto de edifício foi apresentado na sessão de 23 de novembro de 1906, e em dezembro de 1907, foi lançada a pedra fundamental. Hoje, conhecido com o nome de Departamento de Geriatria D. Pedro II, vem montando sua tradição, oferecendo carinho e cuidados especiais aos velhos internados.
Em 1901 tendo o governo do Estado necessidade do terreno em que estava edificado o velho Hospital de Lázaros, á Rua João Teodoro, efetuou-se sua desapropriação, que produziu para o cofres da Irmandade a quantia de R$ 72:740$215. Com o produto dessa desapropriação a Irmandade comprou um sítio no bairro de Guapira, distrito de Santana, nessa Capital despendendo com sua aquisição, escrito e etc, 30:208$200 réis ficando o restante para ser empregado na construção do edifício apropriado dos doentes. De acordo com o plano organizado pelo arquiteto Dr. Victor Andrigo deu-se o começo de sua edificação. Sendo insuficiente para levá-la a efeito o saldo de R$ 42:262$015 da venda do velho hospital foi lançado mão de uma subscrição popular, que resultou na quantia de R$ 24:390$000.No dia 4 de setembro de 1904 realizou-se a inauguração do novo hospital de Guapira, com a presença das mais altas autoridades do Estado. Em 19 de janeiro de 1916, o Dr. Emilio Ribas, médico do Hospital de Lázaros, em carta a Mesa da Irmandade solicitou a transferência dos doentes para lugar mais seco, devido a sensibilidade da doença, por se tratar, o bairro de Guapira úmido e batido todo ano por ventos constantes. Assim, em 1930, os doentes foram transferidos para a coloria de Santo Ângelo. O Hospital “São Luiz Gonzaga” foi inaugurado em 5 de julho de 1932, dedicado exclusivamente aos tuberculosos, praticamente radicado em nosso Estado, graças ao trabalho brilhante de seus médicos.
Desde a construção da primeira capela de Guapira, em louvor a Nossa Senhora da Piedade, seus moradores dependiam da Igreja Matriz de Santana e do Menino Jesus do Tucuruvi, para os casamentos e batizados. A inauguração da Matriz do Jaçanã em louvor de Santa Terezinha, realizou-se em 2 de setembro de 1951, graças ao trabalho incansável do padre Ludovico Zanol, chamado de o “construtor da matriz”, que com o apoio das industrias e comerciantes foi possível realizar esse sonho.
Até o século XIX, o bairro de Guapira era citado como pertencente à Companhia de Jesus, outras, fazendo parte do distrito de Santana. O distrito de Tucuruvi foi criado pela Lei Estadual número 2104 de 29 de dezembro de 1925, tendo sido desmembrado de Santana. Atualmente o bairro de Jaçanã faz parte da administração Regional Santana - Tucuruvi e parte a AR Vila Maria – Vila Guilherme. Os atuais locais representados por Jaçanã. Vila Gustavo, Vila Nivi, Vila Medeiros, Jardim Brasil, Parque Edu Chaves, Vila Constança e Vila Nelson constituíam a área que abrangia o que então denominava-se Guapira.
. O primeiro telefone no Guapira data de 4 de setembro de 1904, com a inauguração do Hospital de Lázaros. A primeira indústria foi inaugurada em 1918 com o nome de “Vidraria Edmundo Lupatelli”, seguindo-se a Companhia Argilas Industriais Ltda e o Cortume Santa Antonio. A primeira escola de Guapira funcionou no Hospital de Lázaros, no entanto a primeira escola pública, foi instalada pela Secretária do Estado dos Negócios do Interior de São Paulo, em 1 de junho de 1922, com o nome de “Escolas Reunidas de Guapira”. O correio tem inicio em 1925. A primeira linha de ônibus (jardineiras) começou a correr entre Santana – Jaçanã – Vila Galvão em 1927 de Antonio Custódio de Castro. A luz elétrica, chegou em Jaçanã, no ano de 1931 substituindo os lampiões de querosene. Em 1949, a Companhia Cinematográfica Maristela inaugura o primeiro estúdio de cinema em São Paulo, sendo filmado nessa ocasião, “Presença de Anita”, “A Pensão de Dona Laura” e o “Comprador de Fazenda” com Procópio Ferreira.
Em 1917, Eu Chaves adquiriu o campo do Guapira, um milhão e duzentos mil metros quadrados pela importância de 55 contos de réis, chegando a possuir vinte e um aviões que trouxe da Europa. Atualmente o local é conhecido por Parque Edu Chaves
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